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Baleia e Ferrugem. Sete décadas os separam. Imprimir E-mail
14 de September de 2007
A morte – sempre ela – os aproxima, na ficção e realidade.

Baleia, cadela esquálida, personagem marcante de “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos (1938). Companheira de Fabiano e família, no agreste.

Image Ferrugem, cão paulistano, vira-lata simpático (pleonasmo), fiel. escudeiro do carroceiro José Rodrigues, que fazia ponto na calçada da Rua Bandeira Paulista, no quarteirão entre as ruas Jesuíno Arruda e Pedroso Alvarenga, no bairro do Itaim Bibi, em São Paulo.

As paralelas traçadas pelo tempo unem os dois, por conta da fidelidade canina. E pelas mortes de Baleia e José Rodrigues. É o grande Graciliano quem escreve: “A cadela Baleia estava para morrer, o pêlo caíra-lhe em vários pontos, as costelas avultavam num fundo róseo, onde manchas escuras...Então, Fabiano resolveu matá-la".

O tiro de misericórdia – “A cachorra espiou o dono desconfiada, enroscou-se no tronco e foi-se desviando... A carga alcançou os quartos traseiros e inutilizou uma perna e Baleia, que se pôs a latir desesperadamente...

 

O fim – “ Baleia queria dormir. Acordaria feliz, num mundo cheio de preás. E lamberia as mãos de Fabiano, um Fabiano enorme. As crianças se espojariam com ela, rolariam com ela... O mundo ficaria todo cheio de preás, gordos, enormes.”  Cai o pano. Como num passe de mágica, chegamos a 2007. Do agreste à selva de pedra. Nela, o mineiro José Rodrigues e seu cachorrinho Ferrugem, tocados pela singeleza, desafiavam a vida na metrópole. Não faltavam algum apoio de poucos e a indiferença de muitos. Entre os poucos, aqueles que sabem o quanto é bom ter um cachorro, o quanto é duro estar na rua (sem futuro, sem o mínimo). Pois estes estendiam a José Rodrigues um prato de comida e uma ração “da boa” ao Ferrugem. E muito mais: a veterinária Fernanda Cabello Campos de Freitas, da Rua Galeno de Revoredo, dava banho no bichinho, cuidava das feridas, vacinava. Enfim, amenizava as agruras do pai de Ferrugem. Os dias passavam na calçada da Rua Bandeira Paulista. Se você fosse falar com o Zé Rodrigues, Ferrugem latia, como a dizer: “Não mexe com meu dono não”. Mas logo ele entendia que a visita era de paz. E aí a conversa rolava. Zé Rodrigues sempre agradecido. Image

 

A surpresa – Um dia após ter quebrado um braço, ninguém sabe como, José Rodrigues morreu. Seu corpo, estendido na calçada ao lado de sua carroça, atraiu gente. (- Engraçado, só a morte para chamar a atenção dos indiferentes!) E Ferrugem? Ele estava ali, ao lado do corpo, não arredava pata. Nem deixava alguém chegar perto do corpo. Rosnava. Vira-lata fiel (outro pleonasmo gostoso de escrever e de ouvir!) Image

 

 

Foram horas, até que removessem o corpo. Quanto ao Ferrugem, a veterinária Fernanda  sedou-o e o levou para a clínica, onde lhe deram um bom banho. Uma senhora que conhecia os dois, ficou com o cachorro.As notícias são as melhores possíveis: Ferrugem está bem (casa, comida e pêlo lavado!). Livraram-no, no “grito”, do que poderia ser o pior...

 

ImageJosé Rodrigues bebeu a vida e foi tragado por ela, gota a gota, desde Minas até São Paulo. Deixara a família nas Gerais, tocado pelo álcool. Em que lugar ele está? Não sei. Mas tenho a certeza que dorme tranqüilo. Afinal, ele tem a certeza de que Ferrugem vive. Não mais na rua.Mas numa casa aconchegante. Nada lhe falta. Nem a palavra em ficção do José Rodrigues, cidadão brasileiro, como tantos que vivem nas esquinas, puxando carroça e  um mundo de indiferença.

O que importa: o melhor amigo do homem não muda.  

A vida continua – A Rua Bandeira Paulista está lá. Por ela passam pedestres que conheceram Ferrugem. Por ela, passa, também, o cachorro de nome Thor, um golden retriever ainda molecão. Como a provar que a vida continua. Que ela é uma moeda. Se tem a face triste, conta com a face alegre de um animal que, de certa forma, substitui Ferrugem. Mas a marca indelével fica: a carroça, o José Rodrigues e o Ferrugem estão lá!

 

Granadeiro Guimarães  - agosto/2007

 

 
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